domingo, 25 de julho de 2010

Alice Braga no país das maravilhas
A atriz brasileira mais disputada em Hollywood fala sobre a vida na ponte aérea

Por Edu Graça
O sobrenome é famoso. Até mesmo em Hollywood, onde o conceito de fama é bem diferente do resto do universo. Mas Alice Braga, 27 anos, pouco é lembrada por ser ''a sobrinha de Sonia Braga''.
Quando entramos numa suíte luxuosa de um hotel à beira do Oceano Pacífico, em Los Angeles, notamos que a atriz brasileira de maior sucesso no exterior já alcançou um patamar diferente da tia. O pôster da superprodução Predadores, reimaginação de uma das franquias mais conhecidas do cinema, estampa a beleza latina da paulistana ao lado de Adrien Brody, 37, ganhador do Oscar de Melhor Ator por O Pianista. Mas o sucesso tem seu preço.
Desde que apareceu em Cidade de Deus (2002), ela não parou mais, atuando ao lado de monstros consagrados como Harrison Ford, 68, e Will Smith, 41, e se dividindo entre São Paulo, Nova York, Los Angeles e outros países - um mês depois de nossa conversa exclusiva, para se ter uma ideia, Alice embarcou para a Hungria, onde filma The Rite com ninguém menos que sir Anthony Hopkins (O Silêncio dos Inocentes), 72. Como resume Laurence Fishburne, 48, o Morpheus, de Matrix e seu companheiro de Predadores: ''Alice é uma estrela''. Vai negar?

Há mesmo algo de extraordinário para uma atriz brasileira chegar a Hollywood e se deparar com um pôster com sua foto?
Não sei se diria extraordinário, mas certamente é algo que não planejei para mim. As portas foram se abrindo, eu fui entrando. Acredito queessa é a melhor maneira de se viver: sem grandes projeções para o futuro. E, claro, continuei trabalhando meu sotaque e meu inglês. Eu me joguei no trabalho e as coisas foram acontecendo. Amo o cinema com intensidade e é tão gostoso conhecer pessoas novas e diversos estilos de direção. Não diria que essa carreira internacional é algo improvável, mas posso afirmar que sou grata pelo que aconteceu comigo.

Ainda é desconfortável atuar em inglês?
É muito difícil. Não é a minha língua original, você não pode improvisar tanto, você não está em casa. Sempre trabalho com um técnico em idiomas antes de fazer cada personagem em inglês. Não é para mudar meu sotaque, mas para deixar minhas palavras mais claras.

Como assim?
É impossível alguém na plateia parar o filme e pedir para você repetir o que falou. Não dá para voltar atrás. Vocêprecisa ser claro no modo de falar. É um desafio gostoso e, quanto menos sotaque eu tiver, mais papéis aparecerão. Já tive quatro horas seguidas de aula de idiomas e pedi para parar só porque fiquei com dor de cabeça. Mas tenho ficado mais confortável a cada ano que passa.

Você se mudou de vez para os Estados Unidos?
Eu vivo metade do tempo no Brasil e metade nos EUA. Cheguei ontem em Los Angeles e volto em duas horas. Daqui auma semana, estarei aqui novamente. Não quero deixar de fazer as coisas com minha turma brasileira de jeito nenhum!

Mas onde é sua casa?
Moro em Nova York, onde tenho um quarto em um apartamento que divido com amigos. Mas estou sempre no Rio, em São Paulo e em Los Angeles. Eu nãoparo nunca. Meu apartamento antigo está em São Paulo e tenho um lugar em Los Angeles, onde guardo coisas, uma espécie de armazém.

Não é cansativo?
Sabe que não? O momento para se viver para cima e para baixo é este mesmo. Eu quero me casar um dia e ter filhos,como manda o figurino. Mas adoro trabalhar e adoro atuar. Minha vida é isto agora.

Deve ser difícil para seus amigos lhe ver apenas de tempos em tempos...
É complicado. Quando eu volto ao Brasil, tenho de avisar todos com antecedência. Fico feliz que a família e os amigos entendam minha vida cigana. Agora, arrumar um namorado fica mais difícil...

Qual a saída?
Uma opção seria ele ter uma agenda mais livre para viajar comigo.

Não falta jovem desempregado com tempo livre nos Estados Unidos...
(Risos) Ah, mas eles teriam de pagar pelas passagens, né (mais risos)? Brincadeira, tenho a mais completa certeza de que, se eu me apaixonar, as coisas vão se organizar naturalmente. No momento, a hora é de viajar, de estar em todos os lugares necessários.

Viajar de primeira classe ajuda.
Tenho até um slogan para minha vida: ''Graças a Deus por existir a primeira classe (gargalhadas)!'' Mas, sério, o slogan porque não viajo sempre de primeira classe! Quando vou por conta própria, escolho a classe econômica. Eu sou pequeninha e não tem problema. Mas quando preciso voar para passar apenas uma noite em uma cidade distante, digo e repito: ''Graças a Deus pela primeira classe!''

Mas deve ser mais fácil paquerar na primeira classe!
Não, senhor! Está enganadíssimo. Na econômica é mais fácil, com certeza! E é pura lógica: as oportunidades são maiores, porque há mais gente, e você não dorme nunca porque é desconfortável. Acredite em mim: eu viajo o tempo todo e já pensei nessa questão. Meninas, se o objetivo é arrumar namorado em voos internacionais, nem pensem duas vezes: vão de econômica (risos).

Você falou em portas abertas, mas Hollywood é uma selva. Qual a sua receita para quando as portas se fecham e você não consegue o papel?
É difícil, mas é assim em todos os lugares.Se tornar uma atriz é um desafio, você precisa de foco e trabalhar duro. Fui rejeitada para filmes que queria muito fazer aqui em Hollywood, mas aprendi com as respostas negativas. Por outro lado, fiz testes e fui contratada. Também tive frio na barriga e deixei de fazer outros. Quanto mais experiente vou ficando, menos isso vai acontecendo.Se não sou aceita para um papel, sei que o problema talvez não é comigo, mas no que os produtores buscam. Tenho tentado me criticar menos. Will Smith me disse, certa vez, algo que carrego sempre: ''Sorte não existe. O que existe é preparação e oportunidade''.

Em que situação ele deu o conselho?
Estávamos no set de Eu Sou a Lenda e eu deixei escapar, sentada ao lado dele, que havia tido uma sorte enorme de fazer parte do filme. Ele me corrigiu na hora: ''Não. Você fez por onde''. Nunca esquecerei meu teste de elenco com ele. Foi muito especial!


Você faz uma atiradora de elite em Predadores. O estereótipo da menina bonita com armas não te assustou?
Obrigada pelo ''menina bonita'' (risos)! Claro, é estranho como você se sente mais forte, com mais poder, carregando uma arma. Mas eu odeio armas. Agora, vamos ser sinceros: os homens adoram ver mulheres armadas.

É um fetiche. Lady Gaga posou com rifles para uma revista...
Eu não entendo esse fetiche. No filme, eu não me senti sexualizada carregando uma arma. Mas, todo mundo que me via, falava: ''Você está sexy!'' (risos)

Mas você está mesmo. Precisou fazer alguma dieta especial?
Tive de parar de comer um monte de coisas. Mas foi uma decisão minha. Meu café da manhã era aveia integral e muito abacaxi. No Havaí, durante as filmagens, todo mundo pegava no meu pé, porque eu comia dois abacaxis por dia. Além disso, comia peitode frango e vegetais ao vapor. Tomei o maior cuidado de não cair no estereótipo da mulher bombadona, então, decidi que não faria séries de musculação e corria até 11 quilômetros.

Você fala pouco de sua tia, mas ela deu algum conselho?
Sonia se mudou para os Estados Unidos quando eu estava nascendo. Então, ela era minha tia, mas morava longe. E, quando eu comecei a trabalhar fora, ela estava voltando para o Brasil. Sinto-me grata por ela ter sido uma das pessoas que abriram esta indústria ainda mais para estrangeiros. Mas Cidade de Deus me deu a oportunidade de entrar em contato com agentes e diretores. Pouca gente sabia que eu era sobrinha de Sonia Braga na época. Tenho o maior orgulho do trabalho dela e é uma honra ser sua sobrinha, mas é bacana ver como tudo aconteceu de forma independente.

Do Brasil para o mundo
Alice Braga pode ter um físico latino, mas ela está passando por cima dos estereótipos fáceis. Se revelou em Cidade de Deus, quando foi notada em Hollywood, e logo estava trabalhando com astros do quilate de Brendan Fraser (12 Horas Até o Amanhecer), Rodrigo Santoro (Cinturão Vermelho) e Julianne Moore (Ensaio Sobre a Cegueira).

FONTE/CONTIGO

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