LUXO E LUXÚRIA
Irene Ravache, de Passione:
'Não é a quantidade de sexo que satisfaz'
Chame-a somente de Clô, ou ela é capaz de processá-lo por calúnia e difamação. Clotilde Yolanda de Souza e Silva, nascida em Vila Monumento e criada no Cambuci (SP), simplesmente de-tes-ta seu nome de batismo. Quando lhe perguntam a idade, diz que nasceu muito cedo e foi feliz tarde demais. Ex-funcionária de Olavo (Francisco Cuoco), casou-se com o ex-patrão já na meia-idade, incitando a inveja da rival, a secretária Jaque (Alexandra Richter), que hoje se faz de sua leal amiga. E, com o Rei do Lixo, Clô leva uma vida cheia de luxos e luxúria, o que faz dela uma das, senão a personagem mais divertida de “Passione”.
— Clô é um holofote! Essa perua se acha! — bem define a atriz Irene Yolanda Ravache Paes de Melo, 65 anos de idade e quase 50 de carreira, que vem brilhando na pele da espalhafatosa nova socialite paulista.
Se alguém aí notou que o segundo nome de Clô é idêntico ao de sua intérprete, saiba que não se trata de mera coincidência...
— É o que os americanos chamam de inside-joke. Ou seja: só quem sabe que o nome verdadeiro de Irene Ravache é Irene Yolanda Ravache vai se divertir com a citação. Acho que minha amiga Irene tem bom humor e inteligência suficientes para encarar uma brincadeira desse tipo — conta Silvio de Abreu, autor da trama das 21h.
Não à toa Clô foi pensada, escrita e desenvolvida especialmente para a veterana atriz.
— Irene sempre foi uma pessoa extremamente divertida, e precisava mostrar essa faceta em uma novela — explica Silvio, trazendo à memória o mais recente papel em novelas de Irene, a amargurada Loreta, de “Eterna magia” (2007).
Para Irene, Clô é um “desafio lúdico”:
— Sempre antes de me entregar a um trabalho, penso: “Será que vou dar conta?”. Mas está sendo muito gostoso. Saio leve do estúdio. Literalmente (risos). É tanto brinco, pulseira, anel... É tanta exuberância que, no fim do dia, quando visto minha humilde roupinha para ir embora, sempre acho que estou me esquecendo de alguma coisa.
Se a (falta de) discrição cria um abismo entre as personalidades de Irene e Clô, o traço em comum entre as duas é o bom humor.
— É uma forma de ver a vida, de você não se achar tão importante. Já fui muito briguenta, hoje mando beijo. Acho que a idade me tornou negociadora. E o humor me salvou de várias situações desagradáveis — conta Irene.
— A gente tem um pouco essa ideia de que são mulheres desocupadas, burras ou insensíveis. Nem todas são fúteis, não! Conheço muita perua que chega toda montada no trabalho, outras são atuantes na benemerência. Na verdade, são apenas mulheres extremamente femininas, que têm um enorme prazer em estar sempre bem arrumadas.
O que não faltam são clones de Clô por aí.
— Outro dia, passou uma na minha frente. Eu a segui com os olhos, temendo que notasse que eu a examinava dos pés à cabeça. Ela ia para um almoço com as amigas, impecável. Talvez nem fosse uma pessoa realmente feliz, mas o sorriso transbordava! — lembra Irene, que por causa de Clô aprendeu “um truquezinho para dar um jeito nos cabelos fininhos”, mas ainda passa longe dos artifícios da vaidade a fim de parecer mais atraente: — As pessoas me acham bonita. Concordo que tenho traços bons, mas há muita coisa que gostaria de mudar em mim. Só que falta coragem, pode ficar pior. Tenho vontade, por exemplo, de fazer uma plástica na barriga, dar uma esticadinha em torno do desenho do rosto, levantar as pálpebras... Só que ainda há muitos papéis de senhoras à minha espera. Nesse aspecto, o profissionalismo conta mais do que a estética.
Gente como a gente
Irene se considera uma legítima representante das mulheres de sua faixa etária:
— Elas chegam para mim de uma forma muito direta, muito simpática. É que não pareço ameaçadora, não vou roubar o marido delas. Também não uso coisas que elas jamais poderão usar. Uma vez, uma fã me falou uma coisa muito bonitinha: “Sabe por que eu gosto de você? Você é uma de nós que deu certo!”.
Também na ficção, com as histórias de Clô, a atriz tem levantado a estima do público feminino de meia-idade. O apetite sexual voraz de sua personagem e de Olavo tem causado o maior burburinho entre as telespectadoras.
— Elas falam: “Nos represente bem, heim?”. No que eu interpreto: “Mostre que ainda estamos vivas, temos uma vida sexual plena, nos sentimos gostosas!”. Acho ótima essa trama, porque há uma ideia errada de que, com o passar dos anos, o interesse sexual de um casal acaba. Além do apetite, tem que haver uma dedicação dos parceiros. A Clô, por exemplo, se arruma toda, se perfuma, se prepara para o Olavo. O sexo muda com o tempo porque o corpo muda, o jeito muda. Não quer dizer que não haja mais interesse — explana a atriz.
Casada há 39 anos com o jornalista Edson Paes Melo Filho, de 67, Irene é enfática: sexo bom não tem a ver com sexo em grande quantidade.
— Costumo dizer que sou como a vaca. Ela não transa todo dia, nem eu. Não é a quantidade que satisfaz, são os códigos próprios do casal que dão prazer. O homem e a mulher que estão há muito tempo juntos têm seus encantamentos, não abrem mão de certas afinidades — afirma Irene, que tem uma maneira muito particular de interpretar sua sensualidade: — Me dá muito prazer entrar numa banheira acompanhada de um bom livro e de uma taça de champanhe. Isso seduz primeiro a mim, depois se estende ao meu marido.
Estrela? Nem em casa
Além de mulher dedicada, Irene Yolanda Ravache é mãe zelosa e avó coruja. Em casa, ela conta, não existem regalias para a grande atriz da TV Globo.
— Sempre vivi cercada por homens. Além do Edson, meus filhos Juliano, que hoje tem 36 anos, e Hiram, que está com 45. Não é que eles não assistam às novelas que faço, até assistem, mas isso nunca teve grande importância na vida em família. Juliano nunca assinou o sobrenome. Escrevia “Juliano R. P. Melo”. Cansou de acontecer de ele levar um colega lá em casa, o garoto entrar e ficar estupefato olhando para mim: “Mas você não me disse que sua mãe era a Irene Ravache!!!”. E ele: “E por acaso alguém me perguntou? O que é que tem?”.
Com o neto, Carlos Eduardo, de 16 anos, o papo também é outro.
— No horário de “Passione”, imagino que o Cadu esteja conversando com os amigos pela internet, de repente. Eu tive que aprender a falar com ele pelo MSN! Mas sei me colocar no meu lugar. Com Maria Luiza, que está com 9 aninhos, acho que tenho um tempo maior para os dengos. Mas nem gostar de brigadeiro e bolinho de chuva eles gostam, acredita? Maaaagros! A minha porção avó tradicional fica restrita a contar histórias.
Depois de muitos anos de terapia, Irene diz que aprendeu a “se colocar no lugar do outro”, e por isso o título de “estrela” nunca lhe coube, seja em casa ou na profissão.
— Lembro que, há alguns anos, quando me propus a participar de uma reunião com outras mães que enfrentavam o problema das drogas com seus filhos, quiseram me poupar, dizendo que eu não precisava, porque era atriz. Imagina! Antes de ser atriz, eu era mãe, uma mulher que sofria. Trabalhar em televisão não era nada perto do que nos unia — conta Irene, rememorando 1994, quando lutou para afastar o primogênito do vício: — Eu fui a mãe que pude ser. Meu filho saiu dessa por ele, por sorte talvez. Ser a Irene Ravache não me deu poder algum para salvá-lo.
FONTE\EXTRA






















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