Susana Vieira:
50 anos de talento
A atriz faz bodas de ouro com a arte cheia de histórias sobre sua trajetória estelar
Por Clarice Muniz
Sônia Maria Gonçalves foi para a frente das câmeras pela primeira vez como dançarina do programa Concertos Matinais, da TV Tupi. Do meio do corpo de baile, a ''loirinha carioca'', como era conhecida a moça nascida em São Paulo, mas criada no Rio de Janeiro, ganhou destaque e passou a se chamar Susana Vieira, nome emprestado de sua irmã.
Depois de fazer novelas na Record e na Excelsior, foi para a Globo, onde se consagrou como uma das maiores atrizes brasileiras. Nesta entrevista exclusiva, ela fala de sua vida dedicada à arte, dos colegas e amigos que fazem parte de sua história, e sobre seus próximos desafios: a gravação de um CD e uma participação em uma novela portuguesa aolado do namorado, Sandro Pedroso.
Você está completando 50 anos de carreira. A ficha caiu?
Para mim, 2010 nunca chegaria, era meio odisséia no espaço. Eu nem sinto que tenha esse tempo todo, mesmo tendo começado aos 18 anos.
Sente que o tempo passou rápido demais?
Quando comecei a ver que alguns amigos das antigas eram homenageados pelos anos de carreira, eu pensei que gostaria de ser lembrada também para mostrar como é chegar aos 50 anos de carreira com 68 anos de vida no auge da saúde, da felicidade e da profissão. Para mim, é uma sensação de orgulho. Nunca me iludi com brilho fácil. E agradeço aos autores e aos diretores com quem trabalhei.
E foram praticamente todos eles, né?
Exatamente. Quando entrei na Globo, era o Vicente Sesso, a Janete Clair. Vejo que todos os autores que entraram depois de mim e viraram grandes escritores, eu passei por eles. O Manoel Carlos estreou na Globo escrevendo A Sucessora. Também fiz as primeiras novelas do Silvio de Abreu, como Cambalacho, A Próxima Vítima... Isso tudo me dá muita felicidade e orgulho. A minha família é a televisão, não sou de um núcleo ou de outro, passei por todos os diretores: Marcos Paulo, Régis Cardoso, Paulo Ubiratan, Herval Rossano...
E não foi difícil abrir mão de sua vida em nome do trabalho?
Imagine. Quando fiz Senhora do Destino, eu decorava à beça, era um papel enorme, não olhei para o lado. Fiquei um ano sem namorado porque não adianta ter um namoro e não poder regar. Passava sábado e domingo na minha piscina tomando sol e lendo texto. Por isso eu fiz um belo trabalho. E é por isso que, se chego ao estúdio e vejo um ator que passou o fim de semana em Búzios e quer passar o texto na hora, eu pulo em cima mesmo. Tem que respeitar um grupo de mais de 100 pessoas que dependem da fala do ator.
Você tinha o sonho de ser bailarina na infância?
Eu comecei a fazer balé com 6 anos, era aluna do Teatro Colón, de Buenos Aires. Depois fui estudar no Teatro Sodré, em Montevidéu, e mais tarde vim para o Rio. Aí fui para São Paulo onde me formei professora de balé da escola de dança clássica do Teatro Municipal de São Paulo. E eu sempre achava que ia ser uma bailarina clássica. Quando estava no Teatro Municipal de São Paulo, a TV Tupi tinha um programa chamado Concertos Matinais Mercedes-Benz e ia lá filmar, era a primeira externa da televisão brasileira. É óbvio que os câmeras ficavam de olho nas bailarinas e vira e mexe eu era focalizada. Numa dessas vezes, o Cassiano Gabus Mendes, que era o diretor-geral da TV Tupi, me chamou para fazer programas humorísticos. Costumo dizer que fui uma das préchacretes que fazia o corpo de baile dos cantores.
Então foi nessa época que tudo começou?
Exatamente. Essa parte da minha carreira é muito importante, pois eu fazia fundo musical para Maysa Matarazzo cantar Meu Mundo Caiu, para a Elza Soares cantar Se Acaso Você Chegasse... Depois comecei a fazer uns programas humorísticos com as garotas do Teatro de Revista, que eram Zélia Hofmann, Anilza Leoni, Íris Bruzzi. Eu era muito menina perto delas, mas foi com elas que aprendi a arte de descer uma escada, a disciplina do Teatro de Revista. O primeiro quadro que fiz, usava um baby-doll e cantava uma musiquinha: ''Sóde baby-doll, só de baby-doll...'' Era eu com uma carinha de bolacha no meio daqueles mulherões. Então começaram a fazer testes comigo falando e demonstrei que tinha talento para representar também. Os diretores da TV Tupi começaram a me chamar para fazer TV de Comédia, que era do Geraldo Vietre, e depois fui para o drama.
Nesse momento começa uma nova etapa...
A dramatização foi a minha grande escola, quando conheci Laura Cardoso, Nathalia Timberg, Luís Gustavo, Claudio Marzo, Lima Duarte, que foram meus professores, eu os via e aprendia com eles. Os diretores eram Walter George Durst e Walter Avancini, que começou a montar um elenco fixo e nos levou para a Record e depois para a Excelsior. Era Regina Duarte, Fúlvio Stefanini, Nicette Bruno, Paulo Goulart, Armando Bogus, Susana Vieira, Francisco Cuoco, Tarcísio Meira, Glória Menezes. Fundamos a dramaturgia na TV Record e na TV Excelsior sob a batuta de Avancini. Começamos a fazer novela, foi o grande começo.
E em casa, seus pais aceitaram sua decisão de fazer TV?
Não foi tranquilo. Para o meu pai, ser bailarina era chique. Quando fui para a televisão, a casa caiu. Há 50 anos era um ambiente muito malfalado. A nossa carteirinha era tirada pela polícia como carteira de prostituta. Não tinha respeitabilidade e a fama era muito pior do que ela realmente era, porque não vi nada de diferente do que vejo hoje, é a mesma coisa, o favoritismo existe e quem dá para alguém também existe. Mas isso não danificou meu cérebro nem a minha moral e o meu caráter. Mas era uma coisa aonde pouquíssima mulher de família ia. Minha mãe vibrou e meu pai levou muitos anos para aceitar. Tanto que me casei muito nova, aos 18 anos, na igreja, de véu e grinalda, com uma pessoa que frequentava minha casa, que era o Régis Cardoso, sob a batuta do meu pai.
E depois do seu casamento, ele aceitou sua carreira?
Meu pai viveu durante uns 40 anos da vida sendo grato a mim, por eu não ter me desviado, de continuar correta, honesta, justa, educada, às vezes mal-educada (risos), mas sem nunca me deturpar. A filha só deu prazer a ele depois de ter se tornado atriz, isso abriu portas. Uma vez ele esteve no Recife, passou mal e foi para o hospital. No corredor, quando falou que era pai da Susana Vieira, foi tratado como um rei. Ele participou muito mais do que a minha mãe, que morreu aos 50 anos. Talvez eu não tivesse me casado tão cedo para ter liberdade. Com um marido do lado, eu tinha uma credibilidade de circular naquele ambiente. Não digo que não tenha amado o meu primeiro marido, que foi o pai do meu filho, mas de uma certa forma era uma válvula de escape. Senão acho que meu pai teria me tirado porque eu era menor de idade.
Você disse certa vez que poderia lavar louça, roupa, mas que não conseguiria viver sem atuar...
Acho que tenho talento para qualquer coisa que me disponha a fazer. Eu, aos 65 anos de idade, fui chamada na Globo para patinar no gelo e aceitei. Tenho mania de aceitar tudo o que for ligado ao trabalho, porque estou disponível para a vida. Quando faço uma cama na minha casa, faço como a melhor camareira do mundo. Nossa obrigação é fazer tudo com perfeição. Mas talento artístico é diferente. Uns representam, outros cantam... Por exemplo, agora estou gravando um CD.
Como surgiu esse convite para cantar?
Foi mais uma coisa que não recusei porque era trabalho. Depois fui ver que é muito complicado, o meu repertório é dificílimo. Eu estou apanhando, fazendo aulas de canto. O convite surgiu de um produtor chamado Samuel Petrosky e do Raymundo Bittencourt, produtor musical da gravadora Albatroz. Eles tiveram a ideia de lançar em Portugal um CD com atrizes que são famosas com trilhas das novelas que já passaram lá. Gravei 12 canções brasileiras de novelas que participei. No meu repertório entrou Cazuza, Maria Gadú, Simone, Ivan Lins, Marisa Monte, eu fui audaciosa.
Além do CD, você fará uma participação em Laços de Sangue, novela que Aguinaldo Silva está supervisionando em Portugal, ao lado do seu namorado, Sandro Pedroso.
Fui convidada pelo Aguinaldo e pela TV Globo, que tem parceria com a SIC, de Portugal. É a Lara Romero, que fiz em Cinquentinha, que aparecerá na novela. Vai haver uma continuação do seriado. Para mim, esse convite foi uma gentileza. O Sandro é um ator que tem registro e é formado em São Paulo pela escola do Ulisses Cruz, The Globe. Ele tem cadastro na Globo, já fez dois testes. Em seis anos de carreira, o Sandro só fez teatro. Nada mais justo do que ele ter a oportunidade de fazer televisão sem eu fazer força, por mais que eu almejasse que isso acontecesse. É bom porque será lá fora, longe daquela cobrança que teria no Brasil. Eu só posso desejar que seja muito feliz como ator e que continue muito feliz comigo.
Diante desses anos de carreira, você se vê como uma diva?
A palavra diva me incomoda porque parece coisa de velha. Eu não conheço nenhuma diva moderna, até a Fernanda Montenegro é moderna. Eu não a vejo num pedestal. Para mim, a diva é uma pessoa inatingível, é mais fake do que uma pessoa adorada e amada como nós somos no Brasil pelo público. Se você chega ao balcão de um aeroporto e a pessoa bate em seu braço pedindo uma foto ou autógrafo, você tem de dar. De uma diva, ninguém jamais chegaria perto. Eu não acredito nessas palavras, ''monstro sagrado''. Acho que na arte isso soa como arrogância. Trabalho com o Tony Ramos, eu o admiro e o considero um dos melhores ao lado de José Wilker. Mas não posso olhar para eles como ''monstros sagrados'', senão como vou ficar diante dessas figuras inatingíveis? Apavorada, e eu não quero sentir medo. Mas acho bom quando as pessoas me dão um valor que, às vezes, até eu mesma não me dou, porque continuo tão insegura como há uns anos.
Você disse certa vez que só consegue guardar lembranças dos momentos felizes. Por algum motivo específico?
Eu tenho essa característica. A minha vida foi toda muito boa. Eu não sei se isso é bom ou ruim, mas gosto de olhar para a frente, quero saber da novela que vou fazer amanhã. Claro que tiveram novelas inesquecíveis. Se me sento para ver A Sucessora, eu choro, é uma obra-prima. Mas não vou dizer que fiquei parada lá, porque uns 20 anos depois fiz Senhora do Destino, que foi outro marco. E ainda fiz um personagem no teatro que se chamava Regina, em A Partilha. Nesse ínterim eu fiz a Branca em Por Amor. Acho que só fui infeliz em uma novela da Globo, mas jamais direi qual foi. A novela não me favorecia em nada, o papel era muito ruim, ia para um lado e o autor me puxava para outro. Foi apenas uma, e não era porque eu não era protagonista. Querida, eu não preciso ser protagonista para arrasar. Eu faço o meu melhor.
Como você está lidando com o HD (High Definition), que mostra todos os detalhes na tela da TV?
Primeiro que no Brasil é um pecado envelhecer. Os personagens não têm 25 anos todos eles. Então terá de ter atrizes de 1 ano de idade a 100. E a minha preocupação estética é muito pouca. Na verdade, eu tenho uma genética muito boa, não tenho culpa de ter essa pele boa, que nem está coberta por pancake. Eu não posso oferecer ao público um corpo de 30 mesmo me cuidando, não posso concorrer com esses corpos fakes que são feitos hoje. O meu peito é meu mesmo. A dona Fernanda Montenegro é jovialíssima, tem senso de humor. Eu vejo outras atrizes da minha geração com total energia, como Renata Sorrah e Regina Duarte. Se a vida acabasse aos 30, o que seria da vida real? Mas devido a essa preocupação como HD, o meu dermatologista falou para eu parar de pegar sol enquanto eu não estiver no ar, pois eu ficaria muito mais bonita. Então eu parei, mas só por causa do HD. Se não fosse isso, imagine!
Depois desse longo tempo de carreira, você ficou rica?
Rico é não precisar do dinheiro no fim do mês e eu dependo do meu. Mas a minha independência eu conquistei com meu trabalho e tenho profundo orgulho de ter os imóveis que tenho hoje, de ter a minha casa de Búzios, onde eu, meu filho, minha nora e meus netos desfrutamos dias maravilhosos, a minha casa construída tijolo por tijolo no Itanhangá, os apartamentos que dei para o meu filho. Quando penso nisso, vejo que tudo o que conquistei foi graças à minha carreira, aí eu vejo o quanto foi proveitosa e bem-sucedida. Eu não sou diferente de outras mulheres, sou forte, corajosa, necessito muito do amor da minha família, mas preciso do amor do público também. A popularidade é que faz você ser bem contratada ou não. E eu conquistei isso por absoluta intuição, porque sou simpática com o público e porque eu sou assim.
1960: De bailarina a atriz
Susana Vieira fez balé dos 5 aos 20 anos, dedicação que ela atribui como responsável pela boa musculatura que mantém até os dias de hoje e que já chamava atenção no começo de sua carreira artística. Como integrante do corpo de baile da TV Tupi, foi ganhando espaço até começar a integrar o elenco de novelas, como As Minas de Prata, na TV Excelsior, e A Última Testemunha, na TV Record. Daí em diante, não parou mais.
1970: A estrela sobe na Globo
Investindo pesado em teledramaturgia para se tornar a líder de audiência que é até hoje, a Globo atraiu os grandes atores das emissoras concorrentes, entre eles Susana Vieira, que adotou a nova casa em 1970. Como atriz global, ganhou o prêmio de Revelação da Associação Paulista deCríticos de Artes (APCA) por seu trabalho em O Espigão, fez par romântico com Tarcísio Meira em Escalada, imortalizou a babá Nice em Anjo Mau e alcançou o sucesso internacional com A Sucessora.
1980: Versatilidade a mil
Nessa década, Susana Vieira já não precisava provar nada a ninguém a respeito de sua arte. Longe de ser uma atriz de um só papel, ela foi do drama à comédia com um talento e um profissionalismo invejáveis. Na novela Partido Alto, por exemplo, resgatou sua veia cômica e se tornou uma dasgrandes atrações da trama. Também fez o gênero romântica, tendo Claudio Marzo como seu principal par nesse período.
1990: Com todo o gás
A chegada dos 50 anos de idade, em 1992, parece não ter abalado Susana Vieira, que continuou exuberante em cena e cheia de vitalidade longe das câmeras. A década também reservou à atriz grandes papéis, como a da exagerada Rubra Rosa de Fera Ferida,a mãezonha Ana de A Próxima Vítima, e a vilã Branca de Por Amor, além de seu maior sucesso no teatro, na peça A Partilha, de Miguel Falabella, com a qual ficou sete anos em cartaz.
2000: O show não pode parar
Estrela consagrada, Susana Vieira conquistou um brilho que independe das luzes dos holofotes ou dos flashs dos fotógrafos. Sua luz natural, conquistada com essas cinco décadas de dedicação à profissão de atriz, só engrandece cada novo trabalho que enfrenta.
FONTE\CONTIGO




















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