terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Oliver Anquier
O padeiro francês mais famoso do Brasil fala sobre alta gastronomia, bronzeado, sapatos, o fiasco da França na Copa da África e a fama de seus conterrâneos de não tomar banho
Por Jardel Sebba
1 – Você mora no centro de São Paulo. Como consegue estar sempre com esse bronzeado?
Eu ando de moto o dia inteiro, então acabo ficando bronzeado em volta da camisa. E um dos meus trabalhos é o programa de TV Diário do Anquier, que passa na GNT. Por causa dele eu  viajo bastante e fico sempre exposto ao sol. Acabo de voltar do Mato Grosso.

2 – Você chegou ao Brasil em dezembro de 1979. Ainda tem planos de perder seu sotaque?
O sotaque é algo muito difícil de perder. Posso melhorar, mas acredito que, comparado aos meus colegas franceses que moram aqui, estou bem, não sou dos piores. Faço o máximo que posso para falar de igual para igual com os brasileiros, procurando ser o mais compreensível possível. Mas acho que vou morrer com um pouco de sotaque.

3 – Qual é a expressão em português que você até sabe usar, mas nunca entendeu muito bem o que significa?
“Não tem chabu.” Eu sei utilizar, mas o que é o chabu? Por que não tem o chabu? Não tem, mas, e se tivesse chabu?

4 – Qual foi o primeiro palavrão que você aprendeu em português?
Acho que foi “caralho” porque era uma palavra que eu já conhecia. Era um palavrão que os portugueses que moravam na França usavam muito, tanto que muitas vezes nos referíamos a eles como “caralhos”. Virou o apelido deles, e eu não tinha a menor ideia do significado até vir morar no Brasil.

5 – Você foi um modelo de sucesso na década de 1980. Dizem que tinha muita cocaína rolando nessa época. Tinha mesmo?
Eu vi muito mais do que isso. Mas seria injusto colocar isso como exclusividade do meio dos modelos. Antes de ser modelo, nos anos 1970, eu vivia em Paris e poderia muito bem ter caído na heroína, que era muito forte entre as pessoas da minha idade. Nunca experimentei por uma única razão: medo da agulha. Meu pai era médico anestesista e, com 6, 7 anos, me levava para assistir a cirurgias, o que me traumatizou. Quando tinha de tomar vacina, eu fugia para a rua, tinha pavor. Não foi uma proteção moral ou ética, foi puramente físico.

6 – Você trabalhou como projecionista de cinema alternativo na França. Qual foi o filme mais chato que você teve de ver nesse trabalho?Morte em Veneza. Fui obrigado a ver aquilo umas 40, 50 vezes. Longo, demorado, insuportavelmente chato…


7 – No começo da sua carreira como padeiro, foi difícil provar que você não era só mais um rostinho bonito na área da panificação?
Mais um, não, porque fui o primeiro. Antes de mim, a imagem do padeiro no Brasil era o português com a caneta na orelha. Era uma profissão totalmente desvalorizada. Acredito que ajudei a transformar isso. Em 1995, quando abri minha primeira padaria, o pão francês era a ralé. Então, respondendo à sua pergunta, não foi difícil.

8 – Objetivamente, por que o seu casamento com a atriz Débora Bloch acabou, em 2006?
Basicamente por um problema cultural. Maneiras diferentes de enxergar a vida fizeram com que a gente se separasse. Quando os filhos cresceram, esse contraste apareceu mais.

9 – E não demorou para você ter um novo relacionamento, certo?
Mais ou menos. Eu namorei, e namorei, depois namorei de novo, e aí casei. Fiquei solteiro uns dois anos.

10 – Em dois anos dá para comer muita gente ou não dá para comer ninguém?
Eu passei esses dois anos vestido de preto, um padre… [Risos.] Não sei. Não vou responder essa sua pergunta até em respeito às mulheres.

11 – Você é tipo o Fábio Jr. da panificação, é só dar uns beijinhos na moça que já quer casar?
Você acha? Eu e minha mulher [a atriz Adriana Alves] ficamos três anos juntos até casar. Você acha pouco?!? A gente foi logo morar junto porque houve a coisa do encontro, do momento, a lgo que só acontece uma vez na vida. Como aconteceu com a Adriana, de súbito, foi a primeira vez na minha vida. Com a Debora foi uma outra história, e ainda bem que as histórias não se repetem, cada uma tem a sua particularidade.

12 – Então você nem aproveitou a fase de solteiro para galinhar?
Meu amigo, não respondi à pergunta sobre minha época de solteiro. Você tem o direito de interpretar como quiser. Mas, na boa, eu não afirmaria isso, não…

13 – Qual foi a última PLAYBOY que você viu e gostou?
Vi uma ontem n o meu podólogo, a daquela menina paraguaia, a Larissa Riquelme. Gostar, eu gosto da minha mulher, mas acho as matérias da PLAYBOY sensacionais [risos].

14 – Sua filha Julia, de 17 anos, participou do seu programa de TV e é uma moça muito bonita. Se a gente convidá-la, no futuro, para posar na PLAYBOY, você vai ficar bravo?
Se vocês a convidarem, sinceramente, acho que nem vai dar tempo de ficar bravo porque ela mesma vai tratar de resolver esse assunto com vocês.

15 – Você já disse ser um homem que gosta dos trabalhos domésticos. Tem alguma coisa que você não deixa ninguém mais fazer?
Tenho uma coisa da minha cultura de me virar sozinho e saber fazer tudo; então, o que precisar eu faço. Mas uma coisa que não deixo ninguém fazer é engraxar meus sapatos. É muito pessoal. Só eu sei cuidar deles como gosto. Quando a Segunda Guerra acabou, meu pai e minha tia prometeram nunca mais sentir “dor no pé”, ou seja, não ter de usar sapatos que não serviam neles. E desenvolveram uma relação peculiar com sapatos que se impregnou na gente. Meu pai dizia que a gente não era rico o bastante para comprar sapatos baratos para usar e jogar fora. Eles sairiam muito mais caros do que um par de sapatos bons que, bem cuidados, duram a vida inteira. Isso ficou marcado para mim. Meus sapatos não duram alguns anos, duram décadas. Tenho pares com 20, 30 anos.

16 – O que você achou de o restaurante dinamarquês Noma ter desbancado o espanhol El Bulli do topo da lista dos melhores restaurantes do mundo neste ano?
Não acompanhei. Gastronomia não é o meu mundo. Meu negócio é a comida caseira. Ando de Fusca, não ando de Ferrari. O Fusca são os valores, as emoções; a Ferrari é a precisão, é a alta gastronomia, é o Alex Atala. Já comi no Atala e gostei muito, mas não é a minha. Não consigo comer tudo que vem naquelas degustações. Preferia escolher um dos pratos e me deliciar com ele. Não gosto também do excesso de formalidade. Me incomoda e acaba me causando um certo tédio. Não gosto de complicação. Culinária, para mim, é simplicidade.

17 – Você toma banho todo dia?
Meu, aí você já está querendo me ofender…

18 – Mas francês não tem a fama de não tomar banho?
Isso vem da Idade Média, da época dos reis, mas não eram só os franceses, eram os ingleses, os italianos, ninguém na Europa tomava banho. Os franceses ficaram com essa fama porque foram os primeiros a tomar uma atitude para diminuir o mau cheiro, o que deu início à indústria de cosméticos. Pelo esforço para sair dessa coisa nauseabunda que era o comum em todo o continente, acabaram demonstrando que estavam sujos. E essa fama é muito mais forte no Brasil do que em outros lugares do mundo.

19 – Você despontou para o grande público durante a Copa do Mundo de 1998, ao fazer reportagens na TV Globo. O que aconteceu com a seleção francesa na Copa  deste ano ?
Um retrato do que é a França hoje, um país cujas pessoas que o representam não têm compromisso com o país. Pessoas que são franceses já por duas gerações, mas que não querem ter compromisso com o país, que cantam e gritam que estão se lixando para a França. Mas também não querem voltar para a terra dos seus avós. O francês é extremamente patriótico, e justamente por esse desrespeito constante e proclamado o patriotismo pode virar nacionalismo, e o nacionalismo pode dar abertura ao fascismo e ao racismo. A França está com problemas, e isso foi mostrado de uma forma concreta na Copa.

20 – Mas o time não era ruim?
Não sei. Não entendo de futebol. Meu negócio é padaria…

FONTE\ABRIL

Nenhum comentário:

Postar um comentário