domingo, 3 de junho de 2012

Edson Celulari:
“Choro quando preciso chorar. É saudável”
Ator conta como lida na vida real com temas como dor 
e desapego, questões que sua peça aborda no teatro

Por Carol Martins
Em cartaz com a peça “Nem Um Dia se Passa Sem Notícias Suas”, em São Paulo, Edson Celulari convive atualmente com questões do universo familiar dentro e fora dos palcos. 
Enquanto na vida real ele vive uma nova história de amor ao lado da atriz Karin Roepke após 17 anos de casamento com Claudia Raia, na montagem ao lado do sobrinho, Pedro Garcia Netto, ele trabalha o desapego, como o que praticou ao se privar do convívio diário com os filhos Enzo e Sophia.
“Acho que o espetáculo tem uma qualidade, de tratar de perdas sem autopiedade, mas de uma forma direta, como deve ser na vida também. É natural que as pessoas se encontrem, se separem. E a dor tem que ser vivenciada, não pode ser camuflada. 
Foi uma separação madura, conscienciosa, porém, uma separação de 17 anos de relacionamento”, diz sobre seu casamento. 
“A minha relação com as crianças está extremamente inteira. Vou ser sempre pai deles e a Claudia, mãe. Temos que encarar isso de uma forma objetiva, o que é saudável pra todo mundo.

 "Eu quero trabalhar até os 100 anos. 
E aí eu quero 20 anos de aposentadoria" (risos)

Veja o que o ator tem a dizer sobre outras questões de vida relacionadas à peça:

Uma saudade da infância e outra da vida adulta...
A irresponsabilidade de jogar futebol na tarde de domingo até escurecer e até a mãe gritar: ‘vem pro banho!!!’. Isso é um tempo bom. Não tenho saudade da vida adulta. Não sou uma pessoa que vivo de recordação, das minhas memórias, dos meus trabalhos. Eu acho que eu penso, sim, num futuro, eu torço, participo pra um país melhor, pra todos nós. No presente, eu vivo o futuro. E do passado, a memória acho que é essa.

Uma lembrança que anda com você...
O meu pai (já falecido).

Um arrependimento.
Pronunciável, nenhum.

Do que foi mais difícil se desapegar na sua vida?
Lembro na minha adolescência de ter que me desapegar da infância. Eu percebi que a adolescência estava chegando de uma lucidez, de uma consciência, de uma responsabilidade diferenciada e eu chorei uma noite inteira e eu não sabia o por quê. E depois de tanto chorar eu me acalmei. E aquilo me ficou como um registro de uma passagem. Eu tinha lá meus 13 anos. O que é bacana é você perceber os movimentos das suas idades e encará-las, vivenciá-las, e sem querer que isso fique ao contrário do natural.

Chora publicamente ou escondido?
 Eu choro em cena, fora de cena, não sei aonde. Choro quando preciso chorar. É saudável chorar.

 Um sonho pessoal e profissional a ser realizado...
Eu quero trabalhar até os 100 anos. E aí eu quero 20 anos de aposentadoria (risos). Só isso.
“A minha relação com as crianças está extremamente inteira. 
Vou ser sempre pai deles e a Claudia, mãe. 
Temos que encarar isso de uma forma objetiva"

Qual foi a primeira peça que você assistiu na vida?
Valmor Chagas num teatro, em Bauru (SP), um palco nu, ele em cena, de jeans e camisa branca aberta no peito, descalço com uma garrafa d’água no fundo do palco e com uma luz e ele falando poesias. Foi um grande estímulo pra mim, na escolha da carreira.

 Qual foi a última coisa que te emocionou?
Uma cena engraçada. Uma bobagem de internet. A relação de um bebê engatinhando e um cachorro que empurrava um carrinho, ou um skate, alguma coisa assim, e fazia a criança caminhar mais. Aí a criança chegava perto, o cachorro ia lá e empurrava. Uma integração de entendimento sem palavras mas de inteligências tão distintas e tão próximas ao mesmo tempo. Parecia uma brincadeira divertida pros dois.

 O que te faz rir?
O absurdo da vida.

Como supera uma grande dor (emocional)?
Encarando, vivenciando e tocando a vida pra frente.

Qual é a sua hora preferida do dia?
À noite. Porque eu tenho mais tranquilidade para pensar no meu trabalho, me concentrar, quando os meus filhos estão descansando. Acho que quando a cidade dorme parece que eu consigo me concentrar melhor.

Qual é o maior ensinamento budista?
O merecimento. Fazer por merecer. Você não pode querer se não fizer por merecer.

O que te inspira?
A criança. A qualidade da criança em sonhar, em acreditar e em imaginar.

 Melhor conselho que já recebeu e deu?
Não sei se acredito muito em conselho. É muito relativo. A experiência pessoal, vivida por alguém pode não servir para o outro. Assim como a educação que eu recebi dos meus pais nem sempre serve para meus filhos. E também não posso educar a Sophia igual ao Enzo. São pessoas diferentes. Tenho que ter um olhar específico pra cada um. Diante disso acho que o melhor conselho que eu recebi foi “se conselho fosse bom, não seria de graça”. E o melhor que eu dei foi o mesmo (risos).

Vou te falar alguns ditados e você diz se concorda ou não:

O coração tem razões que a própria razão desconhece
Isso é verdade, é claro. Tem uma zona que não passa pelo racional e ainda bem que é assim. O descontrole é saudável. Primeiro que é impossível ter controle de tudo e você se lançar às escuras significa ter coragem, e isso é saudável.

 Quem espera sempre alcança
 Eu acredito na persistência, na determinação, no trabalho. Acho que muito do resultado de um grande talento é o trabalho.

Deus ajuda a quem cedo madruga
 Falamos de trabalho novamente. Acho que tem que ser assim. E também acredito que a vida de formiga seja necessária. A vida da Cigarra não vamos deixar de lado. O bom é misturar.

No fim dá tudo certo
Não sei se no fim, mas tudo vai dar certo, esse é o meu lema. Pode ser antes do fim, isso que eu quero dizer.

FONTE\IG

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