José de Abreu
Por Taynara Magarotto
No ar em “Avenida Brasil” como o malvado Nilo, José de Abreu é um dos ícones da dramaturgia brasileira.
Nilo fez parte diretamente da grande virada do folhetim das 21h, quando Carminha (Adriana Esteves) descobriu que Nina (Débora Falabella) era, na verdade, sua ex-enteada, Rita.
Ele é um personagem-chave. Atualmente, inclusive, Nilo está envolvido em um novo mistério. Ele pode ter se relacionado com Lucinda (Vera Holtz) no passado.
Em entrevista exclusiva ao Famosidades, ele falou sobre a construção de Nilo, das maldades de seu personagem na novela de horário nobre, e assegurou que não tem preferência por nenhuma arte: o que der vontade ele faz.
Além disso, ele relembrou o tempo que passou refugiado fora do Brasil; teorizou bastante sobre a política de hoje e o engajamento dos jovens; revelou detalhes de sua vida pessoal e muito mais.
Primeiro, gostaria de parabenizá-lo por 'Avenida Brasil'. Nilo é odiado, mas também adorado pelos telespectadores. Talvez por seu jeito diferente de demonstrar e implorar por afeto. Quais foram suas inspirações para dar vida ao personagem?
Minha base é o Charles Dickens. Um autor inglês que tem como obras o “Oliver Twist”. No livro, tem um velho que explora as crianças. A busca foi do porquê um homem é levado a maltratar crianças. O João Emanuel Carneiro não tem bom e mau. Para ele, o ser humano é um pouco vítima do destino. A questão é o que levou Nilo ir para o lixão. Ninguém mora lá porque quer. Deve ter alguma justificativa. Assim como a Nina justifica sua vingança. Nilo não me revela muito agora. Só uma carência, falta de família.
Levando-se em conta que o ser humano não é totalmente ruim e nem totalmente bom, mas apenas vítima do destino, você considera Nilo um vilão?
Ele é um vilão, sem dúvidas! Ele não nasceu ruim da cabeça, a vida deve tê-lo levado a ficar assim. Acho que ele teve um abalo psicológico. Não quero justificar, mas é algo para humanizá-lo.
Você tem algo a ver com Nilo?
Não, nada! Sou super carinhoso. Não deixo o sofrimento me abater. Já perdi um filho, que foi uma situação bem difícil. Acho que o Nilo sofreu algum crime que o deixou completamente fora de si.
“Avenida Brasil” retrata o lixão, a pobreza, o subúrbio. Para você, está de acordo com a realidade?
Ali, é um lixo extraordinário, né?! A novela transformou o lixo numa coisa lúdica, bonita. Afinal, é uma novela na hora do jantar. Acho que conseguiu retratar bem, sim. Tem uma luz amarelada, uma coisa bonita de se ver. O objetivo não era que fosse uma realidade. Até porque não tem cheiro. Já estive em um lixão e o cheiro é insuportável: dói a garganta, dói o nariz, irrita os olhos. Com a novela, você acredita que aquilo é um lixão, mas o telespectador não chega a ter nojo. Nem tem urubu. E é até uma das partes mais bonitas da novela.
Nilo, assim como as protagonistas Nina e Carminha, é sucesso. Como é a reação do público na rua com você?
O Rio de Janeiro é estranho. As pessoas não dão muita bola, não. Vem muita criança tirar foto, mas as pessoas não ligam para isso aqui. Aliás, criança adora vilão. Mas nem tenho viajado. Até porque o personagem é muito marcante e não pode aparecer muito.
E o que as crianças falam para você?
Dizem: ‘Eu não tenho medo de você’. Eles falam na hora que me veem. Acho que o público nem faz mais confusão entre personagem e ator. Muita gente fala que meu trabalho é incrível.
Por falar em público, o assédio de paparazzi – muito comum no Rio de Janeiro – te incomoda?
A impressão que tenho é que tem uma câmera me seguindo. Até figurantes tiram fotografia dentro dos sets de gravação, mesmo não podendo, eles enchem o saco. A novela das 21 horas marca demais, né?! Quando tem um sucesso assim é comum. A novela tem enquadramentos, posição de câmeras perfeitos. O João [Emanuel Carneiro, autor da trama] conseguiu uma linguagem diferente na novela, sempre mexendo muito com o aspecto social e político.
Disseram que o Nilo vai morrer...
Não vai morrer! Não sei de onde inventaram isso. Só se o autor mudar a sinopse, mas isso não existe. Nilo tem uma função importante no desenrolar da novela. Lucinda tem o passado da Carminha na mão, assim como ele tem das duas.
Mudando de assunto, você já militou politicamente na época em que a arte e a imprensa eram muito censuradas...
Muitos atores foram, né?! Principalmente atores de teatro. Claudio Marzo, Renata Sorrah. O [Carlos] Vereza até chegou a ser preso, o Paulo Betti. Eu até parei uma época. Morei fora do Brasil algum tempo. Fui morar em Londres por dois anos, estava com medo de voltar a ser preso. Fiquei exilado. Quando voltei, fiquei escondido em Pelotas [Rio Grande do Sul]. Não tinha computador naquela época, então a polícia não ia me achar nunca. Daí, a Ditadura foi acabando. Em 1981, eu voltei para São Paulo.
Culturalmente, você acha que o Brasil mudou muito da Ditadura para hoje?
A censura agora é econômica. Quem não mora no eixo Rio – São Paulo não faz cultura. A Lei Rouanet não capta. Fica difícil até para atores famosos.
Não sou de nenhum partido! Já fui Lulista. Acho que ele deu uma melhorada muito grande no Brasil. E a Dilma Rousseff reuniu isso e está fazendo certo. A grande sacada do Lula foi a Dilma!
Dificilmente vemos artistas se envolvendo com o ativismo político. Muitos alegam que não querem aliar sua imagem a nada. Como é que você enxerga essa falta de posicionamento?
Eles não têm Twitter como eu [risos]. Ah, cada um é cada um. Isso acontece em todo o canto, não só com artistas. Até com os estudantes. Tem muito menos gente politizada agora. Antes, os estudantes tinham voz ativa. Antes, a faculdade era um lugar de discussão política, a gente discutia ‘filmes-cabeça’, do Cinema Novo. As músicas de antes falavam de política! Chico Buarque, por exemplo, veio de faculdade.
José de Abreu em uma cena em que seu personagem Nilo contracena com atriz mirim
Mel Maia que interpretou personagem de Debora Falabella, a Nina quando era criança
Então, o que você acha que se perdeu?
Hoje, na faculdade, a turma não fica mais de seis anos reunida. Essa coisa de fazer sistema de créditos diminuiu o contato das pessoas. Foi uma maneira de esvaziar a universidade. Antes, a sala de aula era lotada. Na mesma sala, tinha gente de esquerda, de direita, gente alienada. Se discutia política, filosofia. Isso acabou e é difícil voltar.
Consegue destacar alguns pontos marcantes da vida e carreira de José de Abreu da época quando começou sua carreira como ator e o José de Abreu de agora?
Ah, agora eu estou velho! Com 66 anos [risos]. É muita experiência, né?! No teatro eu me sinto seguro, na TV não me sinto tão seguro assim. Nessa profissão tudo conta: o acaso, o talento, a porcentagem. Hoje sou um homem mais caseiro. Antes, eu jantava fora todas as noites. Chegava da gravação e ia para o bar. Sempre fui casado com mulher boemia.
E hoje você está mais quietinho?
Hoje não! Nem bebo mais cerveja. Na verdade, até bebo, mas é pouco. Não dá mais para beber. A ressaca hoje é dura [risos].
Você tem quase 70 anos e tem Twitter. Como surgiu a necessidade de ter uma conta no microblog?
Acho que é uma maneira boa, diferente e gostosa de me relacionar com as pessoas. É um texto mais enxuto. Eu gosto!
Você já fez muita TV e muito cinema. Qual dos dois gosta mais?
Para mim, não tem diferença! É tudo a mesma coisa.
José de Abreu com sua esposa Camila Mosquella que não gosta de sua barba...
O ator deixou a barba crescer pra compôr personagem,disse que a barba já está com 15 cm
Na maioria das vezes, você interpreta papeis de homens canastrões. Qual sua preferência: mocinho, vilão, malandro...?
O ator deixou a barba crescer pra compôr personagem,disse que a barba já está com 15 cm
Na maioria das vezes, você interpreta papeis de homens canastrões. Qual sua preferência: mocinho, vilão, malandro...?
Gosto desse tipo do Nilo. É o tipo de personagem que dá para brincar. Você dá aquela risadinha, mas sem perder a credibilidade. Ele pode falar o que ele quer, falar palavrão, eu posso errar texto e improvisar mais. É gostoso!
Quase ninguém conhece seu lado pessoal. Como é o José de Abreu sem ser ator: é calmo, nervoso, agitado?
Muita gente acha que sou bravo...
É, você tem uma voz de cara bravo, mesmo...
[Risos]. Sou muito enfático, assertivo!
Depois de 'Avenida Brasil', quais são seus projetos?
Nenhum! [Risos] Vou morar fora do Brasil um pouco. Quero ir para Nova York, Londres ou Tóquio. Também conhecer a China, a Coreia. Quero morar e viajar por uns quatro, cinco anos. Passar uma semaninha em cada lugar.
Com anos de carreira, o que você ainda não fez e gostaria muito de realizar?
Não fico procurando personagem. A hora que me dá vontade eu falo que quero fazer algum. Ricamente ou pobremente, eu vou lá e produzo algo [risos].
FONTE\FAMOSIDADES
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